Por que toda indústria de processo precisa dominar essa técnica de análise de riscos?
Se você atua com projetos, operação ou manutenção em indústrias de processo (química, petroquímica, farmacêutica, óleo e gás), certamente já ouviu falar do HAZOP. Mas será que você sabe como aplicar essa ferramenta de forma estruturada para evitar desastres?
O HAZOP (Hazard and Operability Study) – ou Estudo de Perigos e Operabilidade – é uma metodologia qualitativa e sistemática desenvolvida na década de 1960 pela empresa ICI (Imperial Chemical Industries), no Reino Unido, justamente para lidar com a crescente complexidade das plantas industriais. Desde então, tornou-se uma das técnicas mais respeitadas e exigidas internacionalmente para análise de riscos.
Como funciona na prática?
O HAZOP parte de um princípio simples, porém poderoso: desvios em relação à intenção original de projeto podem gerar acidentes ou problemas operacionais. Para identificar esses desvios, utiliza-se uma combinação de palavras-guia (como "mais", "menos", "não", "parte de", "reverso") com parâmetros de processo (pressão, temperatura, vazão, nível, composição, etc.).
Por exemplo:
· Mais + Pressão → pode levar ao rompimento de uma tubulação.
· Menos + Vazão → pode causar superaquecimento em um reator.
· Não + Resfriamento → pode desencadear uma reação descontrolada.
Cada desvio identificado é analisado em termos de causas, consequências e salvaguardas existentes. Ao final, são geradas recomendações para reduzir os riscos a níveis aceitáveis.
O que torna o HAZOP tão eficaz?
1. Equipe multidisciplinar – Operadores, engenheiros de processo, instrumentistas, especialistas em segurança e manutenção trabalham juntos. Essa diversidade evita pontos cegos.
2. Baseado em P&IDs – A análise é feita sobre os diagramas de tubulação e instrumentação (P&IDs), dividindo a planta em "nós" (pontos específicos, como um trecho de tubulação ou um reator).
3. Foco em operabilidade – Diferente de outras técnicas que olham apenas para perigos graves, o HAZOP também detecta problemas que afetam a produção, a qualidade ou a eficiência energética.
Exemplo prático (simplificado)
Imagine um trocador de calor que deve manter um reator a 150°C. Aplicando a palavra-guia "menos" ao parâmetro "vazão de fluido refrigerante":
· Desvio: Menos vazão de refrigeração.
· Causa possível: Válvula parcialmente fechada ou bomba com falha.
· Consequência: Aumento da temperatura do reator, podendo causar decomposição térmica da carga.
· Salvaguardas: Alarme de alta temperatura, válvula de alívio, procedimento de emergência.
· Recomendação: Instalar um medidor de vazão com alarme baixo na linha de refrigeração.
O resultado final
O estudo HAZOP gera um documento formal contendo todas as recomendações para adequar os riscos. Cabe à empresa priorizar e implementar essas ações antes da partida da planta ou durante uma revisão de segurança de processo.
Cuidados importantes
· HAZOP não é um checklist – exige tempo, disciplina e um líder experiente (geralmente um facilitador externo ou interno certificado).
· Não substitui outras análises (como What-If, LOPA ou FMEA) – muitas vezes é complementar.
· Deve ser atualizado sempre que houver modificações significativas no processo.
Conclusão
Investir em um HAZOP bem conduzido é investir em vidas, ativos e continuidade operacional. Empresas que negligenciam essa prática já pagaram um preço altíssimo em acidentes famosos (como Bhopal, Piper Alpha e Texas City). Por outro lado, organizações maduras em segurança de processo usam o HAZOP como um dos pilares de sua gestão de riscos.
Referências bibliográficas
· IEC 61882:2016 – Hazard and operability studies (HAZOP studies) – Application guide. International Electrotechnical Commission, Geneva.
· CCPS (Center for Chemical Process Safety). Guidelines for Hazard Evaluation Procedures, 3rd ed. Wiley-AIChE, 2008.
· ABNT NBR IEC 61882:2020 – Estudos de perigos e operabilidade (HAZOP) – Guia de aplicação.
· Kletz, T. Hazop and Hazan – Identifying and Assessing Process Industry Hazards, 4th ed. Taylor & Francis, 1999.
· DNV. HAZOP – Estudo de Perigos e Operabilidade. Disponível em: www.dnv.com.br (acesso em 04/04/2026).
Alex Fersan é engenheiro de segurança do trabalho e especialista em análises de risco.
ELABORAÇÃO EM: 04 de Abril de 2025.
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AUTOR: Alex Fersan
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