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Investigação de acidentes com Fatores Humanos

🚨🚨🚨Título: Investigação de Acidentes com Fatores Humanos: a mudança de paradigma para investigar sistemas, não pessoas🚧🚧🚧


Contexto

A investigação de acidentes de trabalho no setor de petróleo, gás e energia tem passado por uma transformação estrutural no Brasil, com impactos diretos na forma como empresas como a Petrobras e suas contratadas analisam e previnem eventos indesejados. Essa transformação ainda enfrenta resistência, especialmente entre profissionais de engenharia e técnicos de segurança, acostumados com modelos tradicionais de investigação está longe de ser um modismo passageiro.

Este artigo apresenta uma visão técnica e prática sobre o papel dos Fatores Humanos nas investigações de acidente, os referenciais teóricos que embasam essa mudança e como aplicar esse conhecimento na rotina de profissionais que atuam com segurança operacional.

1. A evolução dos modelos de investigação de acidentes

Historicamente, a investigação de acidentes no ambiente industrial brasileiro foi dominada pelo que se convencionou chamar de modelo unicausal ou paradigma da culpabilização. Nesse modelo, o acidente era interpretado como resultado direto de um erro humano ou de uma condição insegura, e a investigação se encerrava na identificação do "responsável", frequentemente o trabalhador ou, quando a situação se agravava, a empresa por supostamente "não fornecer condições adequadas". Consequências punitivas sobrepunham-se às ações preventivas e o aprendizado organizacional era praticamente nulo.

Com o avanço da engenharia de segurança e dos estudos sobre falhas humanas, esse modelo foi sendo questionado por uma constatação fundamental: acusar pessoas não impede que o mesmo acidente aconteça novamente com outras pessoas.

"Ao invés de buscar culpados, o foco está em compreender a realidade enfrentada por quem esteve diretamente envolvido nas ocorrências, considerando limitações, condições de trabalho e falhas sistêmicas."

Os estudos de James Reason (Teoria do Queijo Suíço) nos mostram que todo acidente grave é resultado do alinhamento de falhas em múltiplas camadas de defesa — barreiras físicas, procedimentos, supervisão, decisões gerenciais, cultura organizacional, etc.. Reason distinguiu dois tipos de falhas:

· Falhas ativas (ações diretas e imediatas do operador no momento do acidente).

· Falhas latentes (condições estruturais e sistêmicas que já existiam no ambiente de trabalho, muitas vezes muito antes do ocorrido, e que permitiram que a falha ativa resultasse em um acidente).

O que diferencia um modelo maduro de investigação é justamente a capacidade de ir além das falhas ativas e identificar as falhas latentes, pois são estas que, quando corrigidas, previnem toda uma família de acidentes distintos.

2. A Petrobras como percursora na aplicação de Fatores Humanos no Brasil

Nos últimos anos, a Petrobras tem investido fortemente na incorporação de Fatores Humanos à sua gestão de segurança operacional, tornando-se referência no setor. Esse esforço está diretamente alinhado aos requisitos da Nota Técnica ANP 10/2023, que exige das operadoras a adoção das melhores práticas internacionais de Engenharia de Fatores Humanos.

A Jornada Petrobras de Fatores Humanos vem promovendo a formação e capacitação de lideranças, com cinco princípios declarados: "Confiança é fundamental. Pessoas criam segurança. Como respondemos às falhas importa"... Em seu Plano Estratégico, a companhia reafirma a segurança como valor inegociável e amplia essa abordagem para toda a sua força de trabalho: cerca de 140 mil profissionais entre próprios e terceirizados.

Em maio de 2025, a Petrobras realizou a primeira turma de um curso presencial inédito sobre análise de Fatores Humanos em acidentes e incidentes, reunindo dirigentes sindicais de todo o país. O curso apresentou uma metodologia estruturada de quatro etapas:

1. Pré-análise

2. Análise (entrevistas, identificação de falhas e causas)

3. Síntese (elaboração de recomendações baseadas em evidências)

4. Aprendizado (implementação efetiva de mudanças)

Um dos diferenciais dessa metodologia é a análise dos vieses cognitivos que podem distorcer a percepção dos fatos, como o viés de confirmação ou a atribuição pessoal de culpa e o Modelo de Compreensão da Falha, que identifica:

· Gatilhos ativos (ações diretamente ligadas ao acidente)

· Limitações humanas e precursores de erro

· Falhas de barreiras

· Condições latentes

"As causas reais, segundo o modelo, estão principalmente nas falhas de barreiras e nas condições estruturais do ambiente de trabalho."

3. Abordagem sistêmica e ferramentas práticas

A investigação de acidentes sob a perspectiva de Fatores Humanos situa-se no que a literatura especializada denomina Abordagem Sistêmica (ou Sistêmica) — em oposição aos modelos unicausal e multicausal tradicionais. Essa abordagem considera que o erro humano não é a causa do acidente, mas um sintoma de problemas mais profundos no sistema: projeto deficiente, procedimentos inadequados, treinamento insuficiente, pressão produtiva excessiva, falhas de comunicação, ambiguidade de funções, etc.

A implementação prática dessa visão exige que os profissionais de investigação dominem ferramentas específicas, tais como:

· HTA (Análise Hierárquica de Tarefas): desdobramento das atividades em sub-tarefas.

· Análise de Barreiras: identificação das proteções que falharam ou estavam ausentes.

· Análise de Fatores Contribuintes: categorização dos fatores ambientais, tecnológicos, organizacionais e individuais.

· Análise de Causa Raiz (RCA): aplicada com profundidade suficiente para alcançar as falhas latentes de gestão.

4. Desafios comuns entre técnicos e engenheiros na aplicação da nova metodologia

Profissionais técnicos e engenheiros formados sob a cultura da precisão, da lógica linear e da solução de problemas por eliminação frequentemente manifestam um desconforto inicial com a abordagem de Fatores Humanos na investigação de acidentes. Os desafios mais recorrentes incluem:

Desafio Manifestação típica

Viés de confirmação "Já sei o que aconteceu", baseado em hipóteses prévias não testadas.

Parada prematura na causa raiz Identificou-se o erro operacional e encerrou-se a investigação, sem investigar as causas latentes.

Desconforto com subjetividade Fatores humanos parecem "menos objetivos" do que falhas mecânicas ou de equipamento.

Foco exclusivo em recomendações técnicas Recomenda-se trocar um equipamento, mas não se revisam os procedimentos ou a ambiguidade da sinalização.

A superação desses desafios exige treinamento específico, uso de checklists sistemáticos e, sobretudo, a participação de especialistas em Fatores Humanos na equipe de investigação, especialmente quando a ocorrência envolve:

· Falhas de barreira onde a intervenção humana é crítica (operações de ESD, manutenção, start-up).

· Atividades de alta complexidade cognitiva (salas de controle, interfaces HMI).

· Múltiplos eventos semelhantes sem causa mecânica aparente.

A diversidade de perfis na equipe (engenharia + fatores humanos + operação) é o que permite enxergar além do óbvio.

5. Papel das recomendações: eliminação do risco e não apenas correção pontual

Uma investigação conduzida sob a ótica sistêmica deve gerar recomendações que atuem nos níveis mais altos da hierarquia de controles de risco. Conforme a nova metodologia da Petrobras, as recomendações devem priorizar:

1. Eliminação do risco

2. Controles de engenharia

3. Substituição de barreiras falhas

"As recomendações (…) priorizam níveis mais robustos de proteção, como a eliminação do risco, o controle de engenharia e a substituição de barreiras, evitando a dependência exclusiva de EPIs."

Esse princípio evita a falsa sensação de segurança gerada por recomendações superficiais ("treinar o operador", "reforçar a atenção") que não atuam sobre as falhas latentes e, portanto, não previnem a recorrência.

6. Conclusão: segurança como capacidade de aprender com a imperfeição

A mudança de paradigma na investigação de acidentes com a incorporação de Fatores Humanos não é uma tendência acadêmica sem aplicação prática. É uma evidência consolidada nas melhores práticas internacionais, documentada em referências como o IOGP Report 621 "Desmistificando Fatores Humanos — Construindo confiança na investigação de fatores humanos" e o CCPS Guidelines for Investigating Process Safety Incidents.

A segurança, nessa nova visão, não é entendida como a ausência de acidentes nem como o mero cumprimento de regras, mas como a capacidade instalada para agir em sistemas imperfeitos, aprendendo continuamente com os desvios e fortalecendo a autonomia dos trabalhadores.

"O objetivo dessa nova sistemática é tornar a organização mais resiliente ou melhor, antifrágil: capaz de aprender com os erros e se tornar mais forte após cada desafio enfrentado."

Para os profissionais de engenharia e técnicos de segurança que atuam na indústria, o convite é: não investigar quem falhou, mas o que no sistema permitiu que a falha acontecesse. Assim, a investigação deixa de ser um ato burocrático pós-acidente e passa a ser uma ferramenta genuína de prevenção.

📚 Referências técnicas e normativas consultadas

Documento Organização / Fonte

Nota Técnica ANP 10/2023 — Melhores práticas em Fatores Humanos para SGSO ANP (Agência Nacional do Petróleo)

IOGP Report 621 — Desmistificando Fatores Humanos — Construindo confiança na investigação de fatores humanos IOGP (International Association of Oil & Gas Producers)

CCPS Guidelines for Investigating Process Safety Incidents CCPS (Center for Chemical Process Safety)

Guia de Boas Práticas — Investigação de Acidentes (Rev. 2, 18/09/2025) Petrobras / Empresas Contratadas

Modelo de Reason (Teoria do Queijo Suíço) — Reason, J. (1997) Literatura acadêmica de segurança

ASTM F1166-21 — Human Engineering Design for Marine Systems ASTM International

IEC 62682 / EEMUA 191 — Gestão de Sistemas de Alarme IEC / EEMUA

ISO 11064 / NORSOK S-002 / CRIOP — Projeto de Centros de Controle e Salas de Controle ISO / NORSOK / SINTEF

📌 Sugestão de uso: Este artigo pode ser utilizado como material de apoio para treinamentos internos, workshops sobre investigação de acidentes e discussões técnicas sobre a evolução da segurança operacional.

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ELABORAÇÃO EM: 09 de Maio de 2026

ALEX FERREIRA DOS SANTOS

Eng. Civil

Eng. De Segurança do trabalho

Matemático

ENGENHARIA DE ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO E FUNDAÇÕES

ENGENHARIA AMBIENTAL E SANITÁRIA 

ENGENHARIA DIAGNÓSTICA 

Whatsapp: +55(21)9.8914-6287 (COMERCIAL)

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