Biocombustíveis: A Energia do Presente que Molda o Futuro Sustentável
Inspirado pelo 1º episódio do podcast Nossa Energia – temporada biocombustíveis
Os biocombustíveis têm ganhado cada vez mais espaço no debate sobre o futuro da matriz energética mundial. Diferente dos combustíveis fósseis, que levaram milhões de anos para se formar no subsolo, os biocombustíveis são produzidos a partir de matérias-primas renováveis de ciclo rápido, como a cana-de-açúcar, o milho, resíduos agrícolas, óleos vegetais e até dejetos animais. A grande diferença está no ciclo do carbono: enquanto a gasolina e o diesel liberam para a atmosfera o carbono “preso” há eras na crosta terrestre, os biocombustíveis reciclam o CO₂ atmosférico, absorvido pelas plantas durante o crescimento e liberado novamente na queima, criando um ciclo muito mais sustentável.
A transição energética justa, tema central da agenda ambiental global, encontra nos biocombustíveis uma de suas principais aliadas. O etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, por exemplo, é capaz de reduzir até 90% das emissões de gases de efeito estufa quando comparado à gasolina. O biodiesel também apresenta vantagens significativas, chegando a cortar em 70% a emissão de enxofre particulado em relação ao diesel fóssil. Além do impacto ambiental, os biocombustíveis oferecem segurança energética. Estima-se que o Brasil tenha capacidade para produzir 84,6 bilhões de Nm³ de biometano por ano, volume duas vezes superior ao consumo de gás natural em 2022, apenas a partir de resíduos agroindustriais. O setor ainda movimenta a economia nacional, representando 8% do PIB brasileiro e empregando cerca de 4,5 milhões de pessoas, muitas delas ligadas à agricultura familiar por meio de programas de incentivo à produção de biodiesel.
Apesar do potencial, ainda há desafios a serem enfrentados. A logística para coletar e processar resíduos, necessária para a produção em grande escala de biocombustíveis avançados como o SAF (Combustível Sustentável de Aviação) e o biometano, exige investimentos em infraestrutura. Há também a preocupação com a competição por terras, já que a expansão desordenada poderia impactar ecossistemas sensíveis. Nesse sentido, alternativas como a macaúba, uma palmeira nativa do Cerrado, e variedades de canola adaptadas ao clima tropical surgem como opções para evitar conflitos de uso do solo. Outro ponto sensível é o custo: a produção de biocombustíveis ainda pode ser até 30% mais cara que a dos combustíveis fósseis. Contudo, o avanço de tecnologias e bioinsumos promete reduzir significativamente esses valores, podendo gerar economias de bilhões de dólares ao ano para a agricultura.
O futuro dos biocombustíveis já começa a ser desenhado. O SAF surge como peça-chave para a descarbonização do setor aéreo, podendo reduzir em até 80% as emissões da aviação. A Lei do Combustível do Futuro prevê que o bioquerosene represente 1% do total utilizado até 2027, chegando a 10% em 2037. O biometano se consolida como alternativa limpa para o gás natural em indústrias e frotas pesadas, enquanto o HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) desponta como biodiesel avançado, com maior estabilidade química, ideal para setores que exigem alto desempenho, como a aviação e o transporte marítimo.
Os biocombustíveis são essenciais para descarbonizar áreas em que a eletrificação ainda não é possível. Transporte de cargas pesadas, aviação e navegação dependem de combustíveis com alta densidade energética, algo que as baterias ainda não conseguem entregar com eficiência. Ao mesmo tempo, a integração entre agricultura e energia fecha o ciclo da economia circular, transformando resíduos em combustível, como ocorre no processo de produção do etanol de segunda geração a partir do bagaço de cana.
Como afirmou o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, “a ampliação do uso de biocombustíveis é essencial para uma transição justa, promovendo desenvolvimento regional e tecnologia nacional”. A energia do futuro já está sendo moldada hoje, e o Brasil possui todas as condições para liderar essa revolução verde.
📢 Quer saber mais? O 1º episódio do podcast “Nossa Energia” explora a ciência por trás dessas soluções, aborda os desafios técnicos e as políticas públicas envolvidas e mostra por que os biocombustíveis podem ser protagonistas de uma matriz energética mais inclusiva e sustentável.
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Referências
EMBRAPA Agroenergia. Biocombustíveis: inovação para uma matriz energética sustentável. Brasília: EMBRAPA, 2024.
INSTITUTO BRASILEIRO DE PETRÓLEO E GÁS. Transição energética justa e os biocombustíveis no Brasil. Rio de Janeiro: IBP, 2024.
REVISTA OPINIÕES; FIESP. Panorama da bioenergia no Brasil. São Paulo: FIESP, 2024.
GBC BRASIL. Biocombustíveis e economia circular: potencial e desafios. São Paulo: GBC, 2024.